6. GERAL 22.8.12

1. IMPRENSA  DIPLOMACIA DE INSENSATEZ
2. GENTE
3. CINCIA  POR QUE SE ACREDITA NO INACREDITVEL
4. ESPECIAL  HORMNIOS  ELES COMANDAM TUDO, DO HUMOR AO EMAGRECIMENTO
5. EDUCAO  LUXO ZERO, RESULTADO 10
6. GINSTICA  MEDIDAS EXTREMAS
7. PR-SAL  AONDE FOI A RIQUEZA DO PETRLEO?
8. MALSON DA NBREGA  O LADO BOM DA DESINDUSTRIALIZAO
9. DEMOGRAFIA  A NOVA FACE DA EUROPA

1. IMPRENSA  DIPLOMACIA DE INSENSATEZ
O Senado aprova a volta da exigncia de certificado para jornalistas, derrubada em 2009 pelo STF.

     s ideias ruins a histria reserva o mesmo lugar destinado s ms lembranas, o passado. Vez ou outra, porm, algum tenta subverter essa lgica.  o caso dos que defendem a volta da exigncia do diploma em comunicao social para a prtica do jornalismo no Brasil. Trata-se de uma m ideia surgida durante a fase mais repressiva da ditadura militar, em 1969, e derrubada em 2009 pelo Supremo Tribunal Federal. Na ocasio, o STF considerou a regra inconstitucional por ferir o direito  liberdade de expresso. Desde ento, sindicalistas e faculdades de comunicao, vendo-se ameaados em sua sobrevivncia, iniciaram uma campanha para anular a deciso da Suprema Corte. No incio deste ms, a iniciativa prosperou e o Senado aprovou uma proposta de emenda constitucional (PEC) que ameaa forar o pas a dar meia-volta na direo do passado.
     O decreto de 1969 foi imposto no auge da represso  liberdade de expresso  dois anos antes, o governo havia criado, por exemplo, a Lei de Imprensa, que previa a priso de jornalistas em caso de subverso da ordem pblica ou social. Ao exigir o diploma e o cadastro dos profissionais no Ministrio do Trabalho, o decreto procurava controlar quem teria acesso s redaes. A norma vigorou por quarenta anos, at virar tema de discusso no STF. O jornalismo e a liberdade de expresso so atividades imbricadas por sua prpria natureza e no podem ser pensados e tratados de forma separada, afirmou o ministro Gilmar Mendes, relator do processo que enterrou a obrigatoriedade do diploma para jornalistas no Brasil.
     O jornalismo existe para relatar  sociedade fatos de interesse pblico ligados a todos os campos de conhecimento. Nada mais lgico, portanto, que profissionais das mais diversas reas tenham espao para tratar desses acontecimentos. Um jornalista deve conhecer tcnicas de apurao, saber selecionar informaes, organiz-las e relat-las com clareza e preciso. Cursos que ofeream essas ferramentas podem auxiliar na formao de profissionais, mas no devem servir de barreira para impedir que aqueles que investiram em outras formaes usem seu conhecimento para atuar no jornalismo. Se a exigncia do diploma atende a interesses de certos grupos, no contempla os da sociedade. Esta s tem a ganhar com uma imprensa formada por profissionais de matrizes diversas.
     A proposta aprovada no Senado no dia 7 nada mais  do que uma tentativa marota de driblar uma deciso tomada h trs anos pela corte mxima do pas. Ela agora foi encaminhada  Cmara dos Deputados, a quem caber decidir se o texto seguir adiante ou se lhe ser dado o destino devido s coisas do passado, a poeira das gavetas.
JULIA CARVALHO


2. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Dolores Orosco e marlia Leoni

CUIDADO, MENINA
Alm de encantar as fs com msicas que falam de paixonites adolescentes, a cantora americana TAYLOR SWIFT, aos 22 anos, j contabiliza uma invejvel lista de ex-namorados, como o xar Taylor Lautner (o lobo de Crepsculo) e Jake Gyllenhaal. Agora, est namorando CONOR KENNEDY, 18, recm-sado de mais uma desgraa do cl. Sua me, Mary Richardson, sofrendo de grave depresso, suicidou-se em maio  a 12 pessoa ligada  famlia a morrer tragicamente, incluindo o av assassinado que Conor nunca conheceu, Bob Kennedy. Taylor j comprou uma casa grudada na terra santa dos Kennedy, a mitolgica propriedade de praia da famlia em Hyannis Port.

QUAL  O SEGREDO?  DIVINO...
D para acreditar que PAULA BURLAMAQUI  praticamente original de fbrica? Pois a atriz garante que, no esplendor de seus 45 anos, nunca mexeu no rosto nem deu uma enxugadinha no corpo. A dermatologista diz que minha pele ainda est aguentando. E, para manter a forma, fao bal, pilates e musculao. A nica coisa que fiz foi botar silicone, dez anos atrs, enumera, sem invocar os poderes divinos que venera como Dolores na novela Avenida Brasil. Para as cenas de reincidncia sexual em que precisa mostrar o corpo, Paula tem recebido o incentivo de Amora Mautner, amiga e diretora da novela. Ela diz: Vamos l, Paulinha; voc est inteirona. Vamos  praia juntas, e ela conhece bem o meu corpo.

SEGURA A RESPIRAO E VAI
Crescimento zero, ressurgimento dos distrbios de periferia e a medida mais digna de nota at agora de seu governo foi a proposta de aumento da alquota mxima de imposto de renda para sufocantes 75%. Mas pelo menos a mulher e a ex do presidente FRANOIS HOLLANDE pararam de bater boca em pblico. E VALRIE TRIERWEILER, a atual e a mais briguenta, est em forma respeitvel, como mostram as fotos dela de biquni durante frias recentes. Fotos que a primeira-dama francesa tentou impedir que circulassem de qualquer maneira, mesmo na era de alta exposio da internet e das redes sociais. Mas  melhor nem falar em Twitter perto dela para no dar encrenca.

DE CAIR O QUEIXO
A noite era de Sylvester Stallone, que estava lanando o filme Os Mercenrios 2, mas quem deixou todo mundo de boca aberta foi sua me, JACKIE STALLONE. Astrloga de incrveis 90 anos, ela mostrou que o passado de trapezista ainda se reflete no porte ereto. E a boca evoca outro personagem circense, mas ningum vai desrespeitar uma senhora com a idade dela, que recentemente perdeu um neto. Jackie gosta de pesquisar as origens da famlia  a me francesa na Bretanha, os avs judeus na Ucrnia  e est mais calma do que quando brigou ao vivo, num programa de TV, com o ex-marido, acusando-o de desnimo conjugal.

O EX QUER V-LA PELAS COSTAS
A sndrome de marido enganado anda perturbando o jogador de basquete americano Kris Humphries. Por causa dela, seu processo de divrcio de KIM KARDASHIAN parece to complicado quanto o do mensalo. A ltima alegao do jogador  que a ex-mulher, a ex-sogra, Kris Jenner, e at a rede de televiso NBC forjaram o fugaz casamento  de apenas 72 dias de durao  para aumentar a audincia do reality show da espetaculosa famlia. Os advogados do jogador no aceitam nenhum acordo e querem a anulao do casamento. A ltima foi pedir que Kris, a NBC e at o atual (ou de longa data, como espalham) namorado de Kim, o cantor Kanye West, sejam arrolados no processo.


3. CINCIA  POR QUE SE ACREDITA NO INACREDITVEL
FILIPE VILICC
H trinta anos o psiclogo americano Michael Shermer se dedica a combater supersties. Ele criou uma ONG, uma revista (Skeptic Magazine), sites e programas de TV focados em promover o pensamento cientfico e desmascarar charlates. Shermer, que chega ao Brasil no fim deste ms para uma srie de palestras,  autor de quinze livros. O ltimo, Crebro e Crena, foi lanado em portugus na semana passada. Nesta entrevista, ele diz que a tendncia de se iludir com fantasias  prpria do processo mental humano e defende o combate 
crendice em favor do progresso.

Por que as pessoas acreditam no inacreditvel? 
A evoluo fez do crebro uma espcie de mquina de reconhecimento de padres na natureza. As vezes, esses padres so reais, mas na maioria dos casos so fruto da imaginao. Milhes de anos no passado, ao ouvir um barulho vindo da mata, um homindeo poderia supor que se tratava de algo inofensivo, como o vento. Se estivesse errado, e fosse um predador, correria o risco de ser devorado. Nosso ancestral poderia, por outro lado, imaginar a presena de uma divindade perigosa no mato e se afastar o mais rpido possvel. A segunda opo  a que a maioria adota. Imaginar o perigo e fugir garante a sobrevivncia, mas tambm a ignorncia. Ir at o mato verificar do que realmente se trata o barulho exige curiosidade e uma batalha contra os instintos.  nessa categoria, a dos homens que no se rendem a narrativas fictcias, que se encaixa o cientista. Os crentes seguem a trilha inversa, a dos que se contentam com suposies sobrenaturais.  um fenmeno que tem a ver com a qumica do crebro: a convico de que o pensamento mgico  o que basta para a compreenso do universo produz uma sensao de prazer. Ficamos felizes em imaginar que seres msticos, sejam eles deuses ou extraterrestres, se preocupam e cuidam de ns. No nos sentimos ss.

Como se sabe que o crebro  propenso a acreditar no fantstico? 
A neurocincia identifica padres de ondas cerebrais distintos que nos levam a criar crendices e a ter prazer na constatao de que temos respostas s nossas dvidas. Em situaes extremas, como as enfrentadas por quem est no limite da resistncia fsica ou prximo  morte, o crebro reage com a reduo da atividade na rea responsvel pela conscincia e o aumento em regies ligadas  imaginao. Essa reao natural est na origem das alucinaes. No h mistrio nesse processo. Os cientistas so capazes de produzir vises ou a sensao de transcendncia espiritual com o estmulo artificial de certas reas do crebro.

O senhor foi um cristo evanglico ativo no esforo de atrair fiis para sua igreja. Como se tornou um ctico? 
Somos mais abertos  religio na juventude e na velhice. Naturalmente, no fim da vida  comum procurar por conceitos reconfortantes, ainda que irreais. No meu caso, o apelo da crendice me atingiu na juventude, como uma explicao fcil para tudo o que existe. A religio tem um apelo social enorme. O ambiente alentador de uma comunidade ajuda a afastar as dvidas at daqueles que no acreditam plenamente no sobrenatural e nos dogmas religiosos. Desvencilhei-me da crena ao entrar para a comunidade cientfica. O mtodo cientfico, cujo princpio bsico  o de que qualquer afirmao deve ser comprovada em experimentos repetidos, alimenta o ceticismo e favorece o progresso.

O que faz com que a cincia seja a melhor ferramenta para explicar o mundo?
A cincia  democrtica. Qualquer um pode estudar e chegar a concluses racionais. Cientistas esto abertos  possibilidade de estarem errados e, por isso, promovem a inveno e a reinveno de conceitos.  o que garante o avano do conhecimento. A crendice  intolerante. Fixa uma verdade e no abre espao para perguntas. Se nos apegssemos apenas ao sobrenatural, nunca teramos sado da floresta e criado a civilizao.

No mundo moderno, ainda precisamos da crena? 
 impossvel deixar de crer. A cincia tambm depende da nossa capacidade de elaborar crenas. Qualquer experimento nasce com uma premissa baseada no que se acredita ser verdade. Ideologias tambm precisam da habilidade de crer. Eu acredito no liberalismo, na democracia e nos direitos humanos. Podemos, porm, abandonar o que no pode ser explicado, como deuses e bruxos. No nos faria falta.

H vantagens na crena? 
A evoluo nos concedeu a habilidade de acreditar por boas razes. A crena em divindades nos levou a temer o mundo e, com isso, nos ajudou a sobreviver nele. Tambm contribuiu para a formulao de leis que regiam comunidades primitivas. A moral e a tica nasceram na religio.

Se a tica tem origem religiosa, por que ela prevalece na sociedade laica? 
As igrejas se tornaram um fator de corrupo, motivo de guerras e perseguies. Por sorte, presenciamos o declnio da crena no sobrenatural. Pases do norte europeu, onde apenas um quarto da populao segue alguma religio, tm ndices de criminalidade, suicdio e doenas sexualmente transmissveis inferiores aos de estados em que a maioria dos habitantes  de crentes, como os Estados Unidos e o Brasil. Se a religio se declara um bastio da bondade, por que, historicamente, estados teocrticos so mais suscetveis  criminalidade do que os seculares?

Apesar de vivermos na era da cincia, cresce a crena no sobrenatural. Por qu? 
 verdade que vivemos num mundo em que a cincia faz parte do dia a dia. Todos gostam de iPhones e admiram as naves que pousam em Marte. Mas poucos abdicam de crenas sobrenaturais e aceitam a cincia como ferramenta para explicar o universo. A maioria s quer aproveitar os produtos da cincia. Quando se trata de responder a dvidas primordiais, como a origem do universo ou o sentido da existncia, preferem explicaes irreais, mas convincentes em suas narrativas fictcias.

Por que o senhor se d ao trabalho de combater a superstio? 
Sempre me perguntam por que no deixo os crentes em paz. Ocorre que a crena no sobrenatural no  incua. Ao contrrio,  bastante perigosa. Acreditar na dita medicina alternativa  um exemplo. Muita gente morre por substituir o tratamento mdico srio por procedimentos supersticiosos, como o consumo de ervas com propriedades supostamente milagrosas.

No  possvel provar a existncia de divindades e criaturas fantsticas. O senhor concorda que tambm  difcil provar que no existam? 
O fato de no explicarmos um mistrio no significa que ele exija explicaes sobrenaturais. S mostra que ainda no h resposta. O nus da prova cabe aos crentes. O ctico s cr no que  provado. Nesse aspecto, a cincia tem feito bom trabalho ao desmascarar mitos. No passado, j se acreditou que a Terra viajava pelo cosmo no lombo de um elefante. Existem 10.000 religies. Espanta-me a arrogncia de quem supe que s uma crena seja correta em meio a tantas.

O senhor leva em considerao que pode estar errado? 
Assim como todos, s descobrirei a resposta quando morrer. Como cientista, estou aberto  possibilidade de ter me enganado. Se houver um ou vrios deuses, ficarei surpreso. Mas no tenho medo. Se h um Deus, ele me deu um crebro para pensar. Meu pecado seria us-lo para raciocinar e buscar explicaes? Um ser benevolente no me puniria por utilizar bem as armas que me concedeu. 


4. ESPECIAL  HORMNIOS  ELES COMANDAM TUDO, DO HUMOR AO EMAGRECIMENTO
Por acelerar o metabolismo, a irisina vem sendo chamada de ginstica em gotas. Ela  o mais novo achado da intricada e fascinante rede hormonal que rege nosso corpo e nossa mente.
ADRIANA DIAS LOPES E NATALIA CUMINALE

Confirmado o efeito da irisina em humanos, o hormnio levaria a uma perda de 4 quilos em seis meses (*Na pesquisa da Universidade Harvard, os ratos perderam 2% do peso corporal, em dez dias)

     A existncia humana  definida por um mar interior. Com essa certeza, o mdico francs Claude Bernard (1813-1878), considerado o pai da fisiologia, entrou para a histria da medicina. O mar interior foi a metfora usada para sintetizar o seu ltimo (e maior) achado: o de que o organismo  controlado por fluidos que circulam pelo corpo. At ento, acreditava-se que as clulas trabalhavam em circuitos fechados, sem comunicao entre eles. A mudana de paradigma aconteceu em 1848, a partir de experimentos com cachorros. Ao analisar as entranhas dos animais, Bernard percebeu que substncias produzidas no pncreas e no fgado poderiam ser encontradas tambm em rgos distantes, como os intestinos. Foi dado ali, em um laboratrio do Collge de France, em Paris, o primeiro passo para a descoberta dos intricados mecanismos reguladores do mar interior que determinam a existncia humana  os hormnios.
     At agora, contam-se duas centenas de hormnios e, graas a eles, nossas clulas so abastecidas de energia, nosso corao bate, nossas artrias pulsam, temos fome e nos saciamos, dormimos, acordamos e nos emocionamos. To poderosos so que, caso fossem agrupados, todos os hormnios circulantes em nosso organismo somariam apenas dez gotas. Ao longo do sculo XX, a compreenso sobre eles avanou extraordinariamente, mas as pesquisas esto em constante ebulio. Data apenas de um ms, por exemplo, o anncio do detalhamento da ao da irisina, o hormnio produzido pelos msculos com ao nas clulas de gordura  ele prprio revelado no incio do ano. A medida da importncia desse achado  dada pelo endocrinologista Freddy Eliaschewitz, diretor do Centro de Pesquisas Clnicas (CPClin): Fazia pelo menos duas dcadas que no se via uma novidade to impactante na rea 
     As descobertas sobre a irisina foram divulgadas pelas prestigiosas revistas cientficas Nature e Cell. Os estudos conduzidos pelo mdico Bruce Spiegelman, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, avaliaram o impacto da irisina em camundongos. Durante trs semanas, as cobaias praticaram uma hora diria de atividade fsica sobre rodas (o equivalente a um exerccio em esteira ergomtrica), em ritmo de caminhada rpida. A partir do 21 dia (da dcima semana no calendrio humano), os animais produziram irisina em quantidade suficiente para ativar em determinadas clulas de gordura a termognese, processo no qual ocorre a produo de calor. Ou seja, o que se mostra aqui  que a irisina tem o poder de acelerar o metabolismo do tecido adiposo (em at cinquenta vezes) e, portanto, de fazer emagrecer.
     De posse dessas informaes, os pesquisadores desenvolveram em laboratrio a verso sinttica do hormnio. O composto foi ento injetado em camundongos obesos e sedentrios, alimentados  base de uma dieta hipercalrica, rica em gorduras. Ao cabo de dez dias, apesar da inatividade fsica e do excesso de comida gordurosa, os roedores perderam 2% do peso corporal  o que, entre homens e mulheres, equivale a uma reduo de 4 quilos em seis meses. Nenhuma outra substncia, seja ela hormnio, alimento ou suplemento,  capaz de aumentar nesse grau (e de forma to rpida) a velocidade de funcionamento do organismo. As experincias com a irisina em humanos devem comear a partir de 2013. Confirmados os resultados obtidos com as cobaias, estar deflagrada a maior revoluo no tratamento da obesidade desde os tempos da descoberta dos anorexgenos, na dcada de 40, diz o endocrinologista Antonio Carlos do Nascimento. Trocando em midos, a irisina  a ginstica em cpsula  ou em gotas.
     Depois de ser liberada pelas fibras musculares, a irisina chega s clulas de gordura, onde estimula a produo da enzima UCP1. A clula sofre ento uma alterao em sua estrutura qumica e, em vez de estocar a gordura, passa a queim-la, sob a forma de calor. As clulas transformadas pela irisina foram chamadas de clulas bege, j que, no processo de termognese, absorvem mais ferro e, por isso, escurecem. A pesquisa publicada na revista Cell mostrou que as clulas bege possuem, em relao s clulas adiposas normais (as brancas), uma quantidade cerca de vinte vezes superior de mitocndrias, as pequenas usinas de energia localizadas no interior dessas estruturas. Normalmente, a maioria dessas miniusinas se mantm desativada, e elas s entram em funcionamento sob a ao do hormnio  liberado pelo exerccio fsico. Suspenso o estmulo da ginstica, essas mitocndrias so desativadas e a clula retoma seu comportamento original, de estocar energia na forma de gordura. At o artigo na revista Cell descrever as clulas bege, acreditava-se que a irisina agia nas clulas marrons, encontradas sobretudo em recm-nascidos. Nas primeiras semanas de vida, quase um tero da gordura corporal dos bebs  formada pela gordura marrom, que, sob temperaturas baixas, produzem intenso calor. Em outras palavras, as clulas marrons fazem o mesmo que as bege, s que sem precisar da irisina. Elas so importantes para a adaptao do recm-nascido  temperatura fora do tero materno.
     A irisina pertence a um dos chamados circuitos hormonais paralelos. Ou seja, ela  produzida por um rgo fora do eixo hipotalamo-hipfise, da mesma forma que a insulina, sintetizada no pncreas, e a leptina, nas clulas de gordura. Imagine os 200 hormnios organizados como numa orquestra. Os sistemas paralelos equivaleriam s orquestras de cmara, que, apesar de parecer funcionar de forma independente, tm de seguir o ritmo do conjunto. Nessa composio, o cargo de diretor artstico caberia ao hipotlamo, uma glndula minscula localizada no miolo do crebro. A regncia dessa orquestra bioqumica, no entanto, seria da hipfise, glndula do tamanho de um gro de feijo encontrada na base do crnio. Descrita pela primeira vez no ano 150 pelo mdico grego Claudio Galeno (129-216), a hipfise s foi definida como o maestro dos hormnios nos anos 1920, pelo endocrinologista americano Philip Edward Smith (1884-1970). Entre os vrios hormnios produzidos pela hipfise, seis esto envolvidos em 70% do funcionamento da mquina humana (veja o quadro nas pgs. 90 e 91). Essa glndula  to vital que, caso seja tomada por um tumor, perde suas funes gradativamente e de acordo com uma hierarquia bem definida. Nela, os hormnios menos importantes para a sobrevivncia deixam de ser produzidos antes. As primeiras clulas a entrar em falncia so as produtoras do GH, o hormnio do crescimento. Se a reposio de GH no ocorre, o paciente pode levar uma vida pssima, com alteraes graves de memria e perda de massa ssea e muscular, mas dificilmente morrer por causa desse desfalque hormonal, diz Malebranche Berardo Carneiro da Cunha Neto, neuroendocrinologista do Hospital das Clnicas, em So Paulo. Na escala de prioridades, o ACTH, em caso de comprometimento da hipfise,  um dos ltimos que deixam de ser fabricados. Tal composto  o precursor do cortisol, o hormnio do stress. Entre as suas funes, uma das mais importantes  manter a presso arterial. Sem ele, o sangue deixa de circular adequadamente e, em consequncia, os rgos entram em falncia. No h vida sem cortisol. Alm disso, do ponto de vista evolutivo, o hormnio tem um papel fundamental (veja o quadro nas pgs. 92 e 93). Diante de uma ameaa iminente,  ele que nos pe em posio de alerta  para enfrentar o perigo ou fugir dele.
     Chaves da vida, os hormnios tm uma complexidade de ao que fascina. Por vezes,  preciso que dois ou mais se aliem para cumprir uma mesma funo. Para manter o equilbrio hdrico do organismo, por exemplo, so necessrios pelo menos quatro hormnios fabricados em locais diferentes. Um hormnio pode ainda servir para estimular a produo de outro.  o caso da grelina. Produzida pelo estmago com a funo de abrir o apetite, na hipfise, ela tem a misso de ajudar na sntese de GH, o hormnio ligado ao crescimento. Um terceiro exemplo do intricado funcionamento da teia hormonal  o fato de que, a depender da quantidade produzida, da sensibilidade do alvo atingido e do estmulo externo, um mesmo hormnio pode exercer funes completamente diferentes.  o que acontece com um dos mais intrigantes compostos produzidos pelo organismo, a oxitocina. Fabricada pelo hipotlamo e distribuda pela hipfise, ela auxilia a produo do hormnio insulina no pncreas e participa do transporte do esperma nos testculos.  a oxitocina tambm a responsvel pelas contraes uterinas no momento do parto e durante a relao sexual. Ela ainda est presente durante a amamentao, facilitando a liberao do leite materno. Por ser um dos poucos hormnios produzidos diretamente no crebro, a oxitocina  uma das substncias que mais influenciam o comportamento humano.  ela que regula a intensidade dos vnculos afetivos, a autoconfiana e a sensao de relaxamento. A testosterona  outro hormnio curioso. Embora seja fabricada tambm pelo organismo feminino, ela  o hormnio masculino por excelncia. Em ambos os sexos, a testosterona est envolvida na produo de ossos, massa muscular e oleosidade da pele. Ao agir no crebro, estimula a libido. O fato de o sexo masculino produzir cerca de trinta vezes mais testosterona do que o feminino explica por que os homens so em geral mais fortes e mais peludos, tm a voz mais grossa e esto sempre pensando naquilo.
     Graas aos progressos na rea da biotecnologia, hoje  possvel a fabricao de hormnios quimicamente idnticos aos produzidos naturalmente pelo organismo (veja o quadro nas pgs. 94 e 95). A reposio hormonal, como a que  feita na menopausa, aplica-se a absolutamente todas as situaes causadas pela falta de hormnio, diz Marcos Tambascia, endocrinologista da Faculdade de Cincias Mdicas da Universidade Estadual de Campinas. Um desafio ainda persiste: no basta que os hormnios sintticos tenham a mesma estrutura qumica de seus equivalentes naturais.  preciso fazer com que eles se submetam aos comandos do organismo como os originais. Por isso  to complicado (mas no impossvel) o tratamento, por exemplo, do diabetes. Em um organismo saudvel, a insulina  liberada em doses precisas, que, ao longo de um nico dia, variam muitas vezes em funo de diferentes circunstncias. A indstria farmacutica tentou contornar o problema com a criao de insulina de longa e curta durao. Mas, apesar dos acertos, esses medicamentos ainda no conseguem acompanhar totalmente o ritmo natural do organismo. Como o mar de verdade, o da metfora de Claude Bernard  vasto, fascinante e cheio de segredos ainda por desvendar.

ORQUESTRA AFINADA
Imagine o sistema hormonal como uma orquestra. O hipotlamo, no miolo do crebro,  o diretor artstico, e a hipfise, na base do crnio, o maestro. Nesse conjunto, os hormnios sintetizados por outros rgos e glndulas equivalem s orquestras de cmara. Como em um concerto, em que todos os msicos tocam juntos, os hormnios interagem entre si  e o bom funcionamento de um depende da ao precisa de outro. No quadro abaixo, com a consultoria dos mdicos Malebranche Berardo Carneiro da Cunha Neto, Freddy Eliaschewilz e Antonio Carlos do Nascimento, VEJA listou o mecanismo de sntese e ao dos trinta principais hormnios, que participam de 70% de todas as funes do corpo humano.

SISTEMA CENTRAL

HORMNIOS
1. HIPOTLAMO - Oxitocina
2. HIPFISE  Armazena o hormnio e o distribui para a circulao
Crebro: Ativa as regies cerebrais relacionadas s sensaes de autoconfiana, vnculos afetivos e relaxamento.
Mamas: Est envolvida na contrao das clulas musculares mamrias, propiciando a ejeo de leite, no perodo da lactao.
Pncreas: Auxilia a produo do hormnio insulina.
tero: Estimula as contraes uterinas durante o trabalho de parto e a relao sexual.
Testculos: Participa do transporte do esperma.

1. HIPOTLAMO - ADH
2. HIPFISE  Armazena o hormnio e o distribui para a circulao
Rins: Participa do mecanismo de reteno de gua.
Vasos Sanguneos: Com a ao vasoconstritora  fundamental no processo de contrao e dilatao das artrias.


HORMNIOS CONTROLADORES (Sem ao sistmica significativa no organismo, estimulam determinado rgo ou glndula a fabricar outro hormnio)
1. HIPOTLAMO - GHRH
2. HIPFISE  Produz o hormnio  GH 
Clulas - Reduz a entrada de glicose e aumenta a produo de protenas.
Clulas adiposas - Evita o acmulo de gordura nas clulas, sobretudo a do tipo visceral.
Fgado - Libera a glicose para a corrente sangunea. Estimula a produo do hormnio IGF-1. Nos Ossos e Msculos - Est envolvido no processo de renovao das clulas sseas e musculares. No Corao - Participa do mecanismo de contrao do msculo cardaco.

1. HIPOTLAMO - TRH
2. HIPFISE  Produz o hormnio  Prolactina (A produo de prolactina tambm  influenciada pelo hormnio VIP)
Crebro  reduz a libido.
Mamas  Deflagra e mantm a produo de leite durante a lactao.
durante a lactao
Sistema Imunolgico - Garante o bom funcionamento dos linfcitos.

1. HIPOTLAMO - TRH
2. HIPFISE  Produz o hormnio  TSH
Tireoide  permite a fabricao do hormnio T4.
Fgado  Participa da transformao do hormnio T4 no hormnio T3. No Corao - Ajuda no controle da frequncia cardaca. Nas Clulas - Estimula o metabolismo de gordura e glicose. Nos Intestinos - Regula o mecanismo de contrao e relaxamento da parede intestinal.

1. HIPOTLAMO - CRH
2. HIPFISE  Produz o hormnio  ACTH
Glndulas Suprarrenais - Incentiva a sntese do hormnio cortisol. Nas Clulas - Diminui o ritmo de entrada de glicose nessas estruturas. Nos Vasos Sanguneos - Participa do mecanismo de manuteno da presso arterial. Nos Rins - Facilita a eliminao de gua. No Fgado -  fundamental para o equilbrio das taxas sanguneas do hormnio T3. No Corao - Estimula a contrao muscular e os batimentos cardacos.

1. HIPOTLAMO - GnRH
2. HIPFISE  Produz o hormnio  LH
NOS HOMENS
Testculos - Deflagra a fabricao do hormnio testosterona. Nos Ossos - Incrementa a formao de clulas construtoras de ossos. Nos Msculos - Aumenta a massa muscular. No Crebro - Ativa as reas associadas ao desejo sexual. Na Pele - Participa da formao e da manuteno dos pelos. Nas Cordas Vocais - Na puberdade,  o responsvel pelo engrossamento da voz.

1. HIPOTLAMO - GnRH
2. HIPFISE  Produz o hormnio  LH
NAS MULHERES
Ovrios  No perodo da ovulao, participa da sntese dos hormnios estrgeno, progesterona... No tero - Mantm a sade do endomtrio. Nos Rins - Participa do mecanismo de reabsoro de gua e sal 
...e testosterona. No Crebro - Ativa as regies associadas  libido.

1. HIPOTLAMO - GnRH
2. HIPFISE  Produz o hormnio  FSH
Testculos - Ajuda na produo de espermatozoides.
Ovrios - Est envolvido na produo de vulos. Participa da produo do hormnio estrgeno. No tero - Est envolvido na regulao do ciclo menstrual. Nas  Mamas - Na puberdade,  combustvel para a formao das mamas e, na gravidez e na lactao, ajuda na fabricao de leite. Nas Clulas Adiposas -  responsvel pela distribuio das clulas adiposas pelo corpo. Nos Ossos - Aumenta a produo de massa ssea. Na Hipfise - Estimula a produo do hormnio prolactina.

SISTEMAS PARALELOS

CORAO
Produz o hormnio BNP.
Nos Rins - Est envolvido no mecanismo de eliminao de gua e sal.

PNCREAS
Produz os hormnios insulina e glucagon.
Nas Clulas - A insulina permite a entrada da glicose, que  transformada em energia.
No Fgado - O glucagon favorece a liberao de glicose para a corrente sangunea.

OSSOS
Produzem o hormnio esteocalcina.
No Pncreas - Influencia na produo de insulina.

GORDURA
Produz os hormnios leptina e adiponectina.
No Hipotlamo - A leptina estimula a saciedade.
Nas Clulas Adiposas - Para a produo de energia, a leptina aumenta o metabolismo de cidos graxos. A adiponectina torna os tecidos mais sensveis  ao do hormnio insulina.

RINS
Produzem o hormnio eritropoietina.
Na Medula ssea - Est envolvido na produo dos glbulos vermelhos.

MSCULOS
Produzem o hormnio irisina.
Na Gordura - Estimula determinadas clulas adiposas a transformar gordura em calor, aumentando o metabolismo celular.

GLNDULA PINEAL
Produz o hormnio melatonina
No Crebro - Mantm o equilbrio entre as principais fases do sono e desencadeia a sensao de relaxamento.

ESTMAGO E INTESTINOS
Estimulam a produo dos hormnios grelina e GLP-1.
No Hipotlamo - O GLP-1 estimula a saciedade. A grelina aumenta o apetite.
No Estmago - O GLP-1 reduz a produo da grelina.
No Pncreas - O GLP-1 estimula a secreo de insulina.
Na Hipfise - A grelina estimula a produo do hormnio GH.

GLNDULAS SUPRARENAIS
Produzem os hormnios noradrenalina e adrenalina
Nos Vasos Sanguneos - Estimulam a vasoconstrio.
No Fgado - Facilitam a liberao de glicose para a corrente sangunea.
Nas Clulas - Estimulam o metabolismo.
No Corao - Participam do controle dos batimentos cardacos.

QUMICA E COMPORTAMENTO
Alm de regularem o bom funcionamento do organismo, os hormnios regem os mecanismos que determinam o comportamento humano.

STRESS
Cortisol  Conhecido como o hormnio do stress, o cortisol tem um papel evolutivo importantssimo. Diante de um perigo iminente,  ele que pe o indivduo em estado de alerta. No  toa  tambm o desencadeador da experincia fsica do cime  taquicardia, boca seca e estmago embrulhado. Em situaes de segurana, as taxas de cortisol despencam  como quando se dorme ao lado do ser amado, conforme demonstrou um estudo da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos.

ALEGRIA E PRAZER
Dopamina  o hormnio da felicidade e do prazer. A sensao deflagrada pela substncia  to intensa que, para evitar um colapso, o organismo logo interrompe a sua produo. A dopamina participa do sistema de recompensa do crebro, aquele que nos faz querer repetir uma experincia prazerosa. No  de estranhar, portanto, que ela esteja envolvida no processo de estimulao e realizao sexual. Uma comida saborosa eleva em at 50% as taxas do hormnio no crebro.

CURVAS FEMININAS
Estrgeno  Feminino por excelncia, o estrgeno  o responsvel pelas formas curvilneas das mulheres. Combustvel para o desejo sexual, o hormnio atinge seu pico de produo no auge do perodo frtil da mulher, que ocorre no meio do ciclo menstrual  quando ela est mais apta a conceber, maior  a sua disposio para os encontros amorosos. Por isso, na menopausa, perodo em que a quantidade de estrgeno circulante naturalmente cai, surgem alguns dos desconfortos associados  falta do hormnio: queda na libido, problemas de memria, depresso e ganho de peso, entre outros.

JUVENTUDE
GH  Sigla em ingls para hormnio do crescimento, o GH  a substncia da juventude. Est envolvido no processo de regenerao celular de msculos, unha, pele e cabelos, estimula a formao ssea e participa da sntese de vrias protenas. No crebro, ele  a chave que acende os circuitos da sensao de vitalidade e bem-estar. A quantidade da substncia disponvel no organismo varia de acordo com a idade. Sua produo atinge o pico na adolescncia e, por volta dos 25 anos, comea a cair. Aos 16 anos, por exemplo, os nveis de GH esto quatro vezes mais altos do que aos 60 anos.

FOME
Grelina  O hormnio da fome  secretado sobretudo quando o estmago est vazio, ativando as regies cerebrais associadas ao apetite. Vrios estudos j demonstraram que alimentar-se de trs em trs horas reduz a produo de grelina e, consequentemente, diminui a sensao de fome.

SACIEDADE
Leptina  Ao contrrio da grelina, a leptina  o hormnio do comedimento alimentar. Produzida pelas clulas de gordura, ela ativa as regies cerebrais da saciedade. Por mecanismos ainda no completamente desvendados pela cincia, os obesos no respondem  ao da leptina. Um dos estudos mais fascinantes sobre o hormnio foi conduzido por pesquisadores da Universidade Rockefeller, nos Estados Unidos: pessoas com baixos nveis do hormnio tm uma predileo especial por doces.

SONO
Melatonina  Secretada na ausncia de luz solar, a melatonina  o hormnio do sono. Ela faz com que o organismo passe a funcionar em ritmo mais lento, sem o qual o repouso noturno  invivel. Vrios trabalhos cientficos j relacionaram a baixa produo de melatonina a alteraes de humor e comportamento agressivo.

PAZ E AMOR
Oxitocina   um dos poucos hormnios produzidos no crebro. Por isso,  tambm uma das substncias que mais impactam o comportamento humano. Ela  o hormnio da paz e do amor. At a dcada de 80, a oxitocina estava associada a dois processos fisiolgicos envolvidos na maternidade: as contraes uterinas no momento do parto e a liberao de leite na amamentao. Hoje j se sabe que o hormnio ativa as regies cerebrais relacionadas a sensaes de autoconfiana, vnculos de afeto e relaxamento.

TPM
Progesterona  Se h um culpado pelas crises mensais de choro, mau humor e irritabilidade de uma mulher em TPM, ele  a progesterona. O hormnio atinge seu pice no fim do ciclo menstrual.  a lgica evolucionista: a mulher se torna irascvel de modo que os homens se afastem e ela possa se dedicar  gestao. Progesterona vem do latim pro gestare, a favor da gestao.

VIGOR MASCULINO
Testosterona - Produzida em quantidades trinta vezes maiores nos homens, a testosterona  o hormnio que determina o desejo sexual e as caractersticas fsicas do sexo masculino. Por isso, eles tm mais msculo, falam mais grosso, tm ossos mais fortes e so mais peludos. Em excesso, o hormnio deixa tanto os homens quanto as mulheres mais agressivos, desconfiados e egocntricos.

Fonte: Jackson Bittencourt, neurocientista da USP.

NA FALTA DE SINTONIA
O desequilbrio na produo de hormnios (para mais ou para menos) est associado a uma srie de problemas. H aqueles casos, como os de cncer de prstata e de mama, nos quais os hormnios, ainda que em taxas normais, servem de combustvel para a doena.
Fontes: Marcos Tambascia, endocrinologista da Unicamp, e Cesar Boguszewski, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

DIABETES TIPO 1
O QUE  - Doena autoimune, caracteriza-se pela incapacidade do pncreas de produzir insulina, o hormnio responsvel por tirar a glicose da corrente sangunea e lev-la para dentro das clulas, onde  transformada em energia. O diabetes tipo 1 costuma se manifestar na infncia.
SINTOMAS - Excesso de fome e sede, desidratao e perda de peso.
TRATAMENTO - Injees dirias de insulina.

DIABETES TIPO 2
O QUE  - A obesidade leva o pncreas a diminuir a produo do hormnio insulina. Nos casos mais graves, o rgo para de sintetizar o hormnio. O diabetes tipo 2 responde por 90% de todos os casos da doena.
SINTOMAS - Excesso de fome e sede, desidratao e alteraes visuais.
TRATAMENTO - Muitas vezes, a adoo de hbitos saudveis  capaz de controlar a doena. Em alguns casos,  preciso recorrer a antidiabticos orais ou injees de insulina.

HIPOTIREOIDISMO
O QUE  - Associado ao envelhecimento, o distrbio se manifesta quando a glndula tireoide diminui o ritmo de seu funcionamento. Com isso, h uma queda na produo do hormnio tiroxina, ou T4, envolvido no controle do metabolismo.
SINTOMAS - Sonolncia, ganho de peso, inchao e depresso.
TRATAMENTO - Comprimidos de T4 devem ser tomados diariamente pelo resto da vida.

HIPERTIREOIDISMO
O QUE  - Caracterizada pela produo excessiva do hormnio tiroxina (ou T4), em 90% dos casos em adultos, a doena est associada a tumores benignos. Nos jovens, a principal causa  uma doena autoimune, conhecida como Graves.
SINTOMAS - Agitao, excesso de transpirao, aumento do batimento cardaco e perda rpida de peso, uma vez que o T4 regula o metabolismo.
TRATAMENTO - Pode ser medicamentoso, com antitireoidianos, cirurgia para a remoo da glndula tireoide ou terapia  base de iodo radioativo.

DISTRBIO DO CRESCIMENTO
O QUE  - Ocorre quando no h produo suficiente de GH pela hipfise e a criana apresenta atraso no crescimento. Em geral, o problema  diagnosticado a partir dos 2 anos. Na maioria dos casos, a causa do distrbio  desconhecida, mas ele pode ocorrer por tumores preexistentes ou em consequncia de tratamento mdico, como a radioterapia. Quanto mais precoce o diagnstico, mais eficaz  o tratamento.
SINTOMA - Baixa estatura.
TRATAMENTO - Injees dirias de GH at que se alcance a altura ideal para a idade.

OVRIOS POLICSTICOS
O QUE  - A doena  deflagrada pelo desequilbrio entre os hormnios sexuais. H excesso de estrgeno, reduo de progesterona e pode ocorrer aumento de testosterona. Como os hormnios femininos participam do controle de gorduras no sangue, a portadora da doena pode apresentar colesterol alto.
SINTOMAS - Alteraes menstruais, aumento de pelos no rosto e dificuldade para engravidar.
TRATAMENTO - Administrao de anticoncepcional, ou de indutores de ovulao para quem deseja engravidar.


5. EDUCAO  LUXO ZERO, RESULTADO 10
Um conjunto de escolas revelado pelo novo Ideb mostra que, com esforo e disciplina, d para cumprir metas e alcanar a excelncia.
GABRIELE JIMENEZ E NATHLIA BUTTI

     Poucos indicadores so to cruciais para o avano do pas quanto o ndice de Desenvolvimento da Educao Bsica (Ideb), termmetro do ensino que produz a mais abrangente e precisa radiografia sobre a sala de aula brasileira. A ltima leva de dados, divulgada na semana passada pelo Ministrio da Educao (MEC), mostra que houve avanos nos dois ltimos anos, mas adverte  com um festival de notas vermelhas para estados, municpios e escolas  que a distncia entre o Brasil e os melhores do mundo  ainda longa. Para se ter uma ideia, no segundo ciclo do ensino fundamental apenas 3% das escolas ombreiam hoje com o padro da OCDE (que rene os pases mais desenvolvidos). E quase a metade patina num patamar sofrvel  sem passar da nota 4 (s para lembrar, numa escala de zero a 10).  diante desse cenrio que reluz um conjunto de bons colgios que conseguiu se desprender da mdia de maneira extraordinria, alcanando a excelncia sem muito dinheiro e nenhum luxo. Ao contrrio da maioria, eles prezam e cultivam a meritocracia, preservando os bons professores, e levam as metas de avano estabelecidas pelo MEC to a srio que se organizam em torno delas. No foi por acaso, portanto, que as atingiram plenamente, como mostra o novo Ideb.
     A pedido de VEJA, o economista Ernesto Faria, da Fundao Lemann, fez um levantamento entre as 40.300 escolas avaliadas nas primeiras sries, cruzando o resultado de cada uma no Ideb com o nvel socioeconmico de seus alunos. Baseou-se em informaes que os prprios estudantes forneceram ao fazer a Prova Brasil (um dos medidores que compem o Ideb). Quase sempre, os colgios mais bem avaliados so justamente aqueles que recebem crianas de famlias de melhor educao e maior renda. Mas o levantamento do economista traz boas surpresas que rompem com essa lgica de modo exemplar.  o caso do Ciep Glauber Rocha, da rede municipal do Rio de Janeiro, que cravou 8,5 no Ideb, ficando no topo do ranking estadual e em segundo lugar na comparao nacional. Situada numa rea vizinha a um reduto do trfico, lugar onde as taxas de homicdio superam em vinte vezes a mdia da Zona Sul carioca, a escola se tornou um osis do bom ensino (algo que alardeia fixando a nota do Ideb nas paredes) por meio de uma cartilha simples, mas certeira. Engaja os pais na vida escolar, cultiva a leitura, tem um currculo bem organizado, um quadro de mestres longevo e uma diretora, Ioliris Paes Alves, 47 anos, que est no comando h dezessete. A equipe inteira, do pessoal da limpeza  coordenao, vive motivada com a ideia de subir no ranking, diz a diretora. Escolas como essa so exemplos contundentes de excelncia, j que conseguem compensar a desvantagem inicial dos alunos com um ensino de alto nvel, observa Priscila Cruz, da ONG Todos pela Educao.
     O Ideb ajuda a desmistificar a ideia muito em voga no Brasil de que mais dinheiro  condio necessria para alcanar a excelncia. O exemplo de Minas Gerais  esclarecedor: o estado  o campeo nacional no primeiro ciclo do ensino fundamental  com Ideb 5,9 em constraste com o Ideb 5 da mdia brasileira , mas no ranking dos gastos por aluno est em apenas 14. O Amap, por sua vez, tem Ideb 4,1 (30% menor que o de Minas) e aparece na terceira colocao entre os mais gastadores. A educao ali est fundada sobre as bases da continuidade nas polticas pblicas desde a dcada de 90 e na articulao entre estado e municpios, explica a especialista Maria Helena Guimares. Alm disso, o estado  que ainda emplacou em primeiro lugar a Escola Municipal Carmlia Dramis Malaguti, de Ita de Minas  tem dado relevante nfase aos programas de alfabetizao. Com uma base slida a, j est provado, crescem exponencialmente as chances de a criana ter um bom rendimento nas sries que viro.  a mesma estratgia adotada no Cear, o estado que mais extrapolou a meta definida pelo MEC  cravou mdia de 4,9, enquanto era esperado que ficasse em apenas 4.
     O indicador oficial ainda joga por terra um equvoco em que muitos pais incorrem ao escolher a escola dos filhos. Acabam priorizando as instalaes em vez de atentar para itens verdadeiramente decisivos, como o nvel dos professores ou a presena de um bom diretor. O Ideb mostra justamente que  possvel alcanar a qualidade em ambientes sem grande aparato, desde que os mestres e o diretor no se deixem paralisar pelas mazelas. Na escola municipal que lidera o ranking do Piau, a Bom Princpio, em Teresina, as aulas de reforo extraclasse ocorrem, por falta de sala, num espao improvisado sob um ptio coberto. No  o ideal,  verdade, mas a lio produz um avano notvel no boletim.  um exemplo de plena superao que contrasta com o vexaminoso desempenho da tambm piauiense Escola Estadual Professor Agripino, a 419  posio no ranking do estado  apesar de receber alunos com um ponto de partida mais favorvel, vindos de famlias com razovel situao socioeconmica. Ali falta at professor de matemtica, mas a coordenadora Letici Santana, 57 anos, apenas lamenta: Eu falo para os alunos estudarem com os pais, j que no temos condies de suprir a necessidade deles.
     O mapa do ensino que emerge agora indica um avano razovel nas primeiras sries do nvel fundamental, mas mostra que, nos anos escolares que se seguem, os progressos vo ficando cada vez mais tmidos, quando no inexpressivos  como  ocaso do ensino mdio. O MEC prev que o Brasil alcance o atual patamar dos pases da OCDE apenas em 2021.  preciso acelerar o passo. Que as escolas aladas ao topo da excelncia pelo Ideb sirvam de espelho. 

Escola  CIEP GLAUBER ROCHA 
Onde fica: Pavuna, um dos bairros mais violentos do Rio de Janeiro.
Nota no Ideb: 8,5
Posio no estado: 1
Posio no ranking socioeconmico: 1579

Escola  ESCOLA MUNICIPAL LAUDIMIA TROTTA
Onde fica: Tijuca, bairro de classe mdia carioca
Nota no Ideb: 3,7
Posio no estado: 2251
Posio no ranking socioeconmico: 71

Escola  ESCOLA MUNICIPAL BOM PRINCPIO
Onde fica:  beira de uma autoestrada que corta Teresina
Nota no Ideb: 7,7
Posio no estado: 1
Posio no ranking socioeconmico: 153 

Escola  UNIDADE ESCOLAR PROFESSOR AGRIPINO OLIVEIRA
Onde fica: em um bairro de classe mdia da capital piauiense
Nota no Ideb: 3,8
Posio no estado: 419
Posio no ranking socioeconmico: 10

COM REPORTAGEM DE HELENA BORGES


6. GINSTICA  MEDIDAS EXTREMAS 
Treinamentos fsicos de altssima performance so a novidade do momento entre os malhadores. Corpos muito mais musculosos do que no passado foram a tnica da ltima Olimpada e, agora, o modelo bombado domina academias. Vai encarar a marretada?
MARIANA AMARO

     Atacar pneus de trator com marretas, carregar cordas de 12 quilos nas costas e praticar outras loucuras esta na moda entre os perseguidores do fsico explosivo. Loucura no  totalmente fora de expresso. Nos Estados Unidos, o nome do programa de exerccios extremos do momento  Insanity, e ele rene uma quantidade to radical de movimentos que chega a queimar 1000 calorias por sesso. Com uma folga por semana. Quem achava que duas a trs aulas na academia, alternando esteira e alguns aparelhos de musculao, eram suficientes pode engolir em seco. O fervor olmpico que geralmente baixa depois da grande competio esportiva mundial, os preparativos para a prxima estao quente, a moda dos corpos cheios de msculos e a tendncia da hiperginstica esto se combinando para tirar o flego dos amadores.
     A Olimpada evidentemente foi a grande vitrine dos msculos fenomenais. A diferena entre o bronze de Cesar Ciclo e o ouro do francs Florent Manaudou foi infinitesimal, mas os corpos igualaram-se no poder escultrico. At dez anos atrs, o treino dos nadadores era nadar e nadar, por horas a fio. A musculao era malvista pelos tcnicos porque eles achavam que muito msculo tirava a forma aerodinmica do corpo do nadador e, por isso, atrapalhava a performance, diz Paulo Zogaib, fisiologista da Universidade Federal de So Paulo. Hoje, sabe-se que nadadores e corredores, por exemplo, precisam passar a metade do tempo se dedicando a seu esporte especfico e a outra metade fazendo exerccios funcionais que trabalhem diversos grupos musculares ao mesmo tempo, explica Turibio de Barros, fisiologista especialista em esporte. O conhecimento cada vez mais avanado do funcionamento do fsico e da importncia dos msculos para aumentar a propulso e amenizar os efeitos do esforo embasa o treinamento dos atletas de ponta.  por isso que as pesquisas mostram agora que as maratonas no destroem tanto o corpo dos atletas, diz Turibio. Como eles hoje se preocupam em criar e fortalecer os msculos, seus corpos esto mais preparados.
     Os aperfeioamentos alcanados com atletas de elite transbordam para os esportistas amadores. Os treinamentos de altssima exigncia aproveitam as lies dos profissionais para produzir, em lugar de medalhas, corpos extremamente em forma. As pessoas se sentem melhor ao ver que ultrapassaram seus limites fsicos, diz Shaun Thompson, o criador do Insanity. Os nomes so feitos mesmo para impressionar. As aulas de Heroes Camp, dadas na academia Reebok, em So Paulo, renem o jeito de treinamento militar e acessrios que injetam novidades de ar rstico. Na quarta vez em que levantei a corda, j queria parar, relembra a designer de interiores Isabela Queiroz, 24, hoje habituada a arrastar a carga de 12 quilos brincando. Quando a aula acaba, todo mundo tem certeza de que foi ao limite e, por alguns segundos, at o ultrapassou, diz o treinador Julio Mariano, 37, que enfrenta o ataque ao pneu de trator com uma marreta de 16 quilos brandida vinte vezes por minuto.
     Existem limites para a expanso dos msculos? O ciclista alemo Robert Forstemann, bronze em Londres na competio por equipes,  uma espcie de madrinha de escola de samba do esporte: sempre d para aumentar mais um pouco. Suas estarrecedoras coxas tm 86 centmetros de circunferncia  vinte a mais do que as de Valesca Popozuda. Ele j tinha predisposio gentica para ter coxas grossas. Com treinamento direcionado, ficou fora do comum, analisa o fisiologista Paulo Roberto Correia, ex-velocista olmpico. Do ponto de vista esportivo, msculos descomunais geram certas desvantagens. O atleta pode ter muita potncia, mas, se no tem resistncia, no consegue manter a velocidade por muito tempo.  como se ele fosse um carro com rodas grandes, mas com motor comum e pouca gasolina, diz Correia. Mas o coxudo alemo, policial de profisso,  um exemplo que muita gente quer seguir. Exerccios extremos no so para quem quer controlar o colesterol, o diabetes ou algum outro corolrio da vida contempornea, e sim obter um fsico de babar. Em sua forma mais radical, s so permitidos para quem j tem um bom condicionamento, mas a ginstica intensa aparece cada vez mais como a alternativa consistente para o emagrecimento.
     A clssica combinao de dietinha e caminhada diria de quarenta minutos no  suficiente para perder quilos e, acima de tudo, no reencontr-los. H levantamentos cientficos indicando que at 80% das pessoas que emagrecem e continuam fazendo regime e exerccios leves, em um ano, voltam a engordar pelo menos 5 quilos. Disposta a desafiar a lei do eterno retorno, Nathlia Santoro, 23, ganhou no ms passado o significativo ttulo de Garota Fitness So Paulo. Em cinco meses de malhao pesada, ela trocou um corpo celulitoso de 62 quilos por outro, definidssimo, de 52. Meus colegas de academia fazem um exerccio para o bceps, com trs sries de quinze repeties. Eu fao trs exerccios seguidos para o mesmo msculo, com quatro sries de vinte repeties, especifica. Mas no quero ficar grande, feito uma Panicar. Est explicado.

A BRIGA VAI SER DAS BOAS
Ele estudou Friedrich Haeyk e outros economistas desbravadores da escola austraca e, ao contrrio de muitos polticos,  capaz de lidar com nmeros complexos. Mas o pessoal da malhao (e uns e outros, loucos por desejos inconfessveis) quer mesmo  saber como Paul Ryan conseguiu o fsico de atleta. O deputado de 42 anos tornou-se um personagem altamente visvel depois que o candidato republicano  Presidncia dos Estados Unidos, Mitt Romney, o escolheu como companheiro de chapa. Ryan  da turma dos treinamentos pesados. Praticava esqui nas montanhas nevadas de seu estado natal, Wisconsin, e chegou a trabalhar como personal trainer. Hoje, pega pesado no P9OX, ou Power 90 Extreme (noventa  o nmero de dias que dura cada mdulo). O programa mistura elementos de aerbica, musculao, artes marciais, ioga e pilates. Exige seis dias semanais de prtica, mas uma quantidade modesta de implementos: pesos, uma cadeira e um equipamento simples para abdominais. A suadeira j rendeu ao candidato a vice um corpo com apenas 6% de gordura corporal  nvel de atletas. Ryan vai precisar de todo o muque, e mais alguma coisa, para ajudar Romney na luta desigual com Barack Obama.


7. PR-SAL  AONDE FOI A RIQUEZA DO PETRLEO?
As cidades premiadas com os royalties cresceram menos do que as outras. Mas ainda podem escapar da maldio do ouro negro.
MARCELO BORTOLOTI E HELENA BORGES

     Desde a sua descoberta, as gigantescas reservas de petrleo nas profundezas do pr-sal vm sendo celebradas como um bilhete de loteria premiado. Os primeiros dividendos dessa espetacular riqueza, que pode somar  economia brasileira o equivalente a todo o PIB da Bolvia, j comearam a reforar o caixa de um conjunto de pequenos e mdios municpios entre o norte fluminense, o sul capixaba e o litoral paulista. Nessa rota, de onde emergem 85% da produo nacional, VEJA visitou as dez cidades que ao longo da ltima dcada mais foram beneficiadas pelo dinheiro dos royalties  fonte que no secar to cedo graas  sua privilegiada posio no mapa do petrleo. O dinheiro que jorra em seus cofres j representa at 80% de tudo o que arrecadam. Embora as perspectivas sejam reluzentes, o que se v nesse naco do pas no so imagens de desenvolvimento a todo o vapor. Numa comparao caricata, a histria desses municpios faz lembrar, ao menos at agora, a daquele felizardo apostador que ganhou uma bolada formidvel, mas, sem saber o que fazer com ela, desperdiou-a na mesma velocidade com que a embolsou.
     A histria est cheia de exemplos de cidades e pases que, repentinamente inundados com o dinheiro fcil dos recursos naturais, negligenciaram a oportunidade de investir na melhoria do nvel educacional de sua populao e na modernizao de suas economias. Mal explorado, esse tipo de riqueza acaba contribuindo para o surgimento de sistemas polticos nocivos, fundados sobre as bases do assistencialismo. Onde essa maldio fez e se faz presente  seja na Potos que transbordava de prata no sculo XVII, seja no Zimbbue dizimado pela guerra em torno dos diamantes ou na Venezuela convertida em palco de populismo e misria , perdem os cidados e perde a democracia. No eldorado brasileiro do pr-sal, territrio onde, se tudo der certo, o PIB pode crescer em ritmo chins, a maldio do petrleo esta  espreita. O que se v nesses lados do Brasil  tpico de lugares onde as instituies ainda no so suficientemente slidas para lidar com uma mudana to grande de patamar, explica o economista Fernando Postali, da Universidade de So Paulo (USP).
     Postali  autor de um estudo que comparou a evoluo da economia em cidades de mesmo tamanho dentro e fora do raio do petrleo, baseado em dados de 1996 a 2005. A concluso  espantosa: justamente as que receberam royalties cresceram em ritmo mais lento do que as outras que esto distantes dessa riqueza. Um levantamento da Federao das Indstrias do Rio de Janeiro (Firjan) lana luz sobre as fragilidades nesses municpios visitados por VEJA. Muitos no avanaram e outros at retrocederam naquilo que  vital para perpetuar o desenvolvimento. Em sete deles, o nmero de postos de trabalho aumentou de forma inexpressiva, ou mesmo encolheu. A maioria tambm viu sua posio despencar nos rankings nacionais que medem a qualidade da sade e da educao  nessa ltima lista, Campos dos Goytacazes, por exemplo, caiu 1000 posies desde 2000, segundo a Firjan.
     Recordista na arrecadao de royalties entre essas dez cidades, Campos  tambm campe em aes de improbidade administrativa entre os municpios visitados. Desde 2001,  alvo de 68 processos. Isso ajuda a entender por que, nos clculos do professor Fernando Postali, a cidade perdeu a chance de somar ao seu PIB per capita 1,3% por ano na ltima dcada. Ali, a prefeita Rosinha Garotinho  que tenta a reeleio depois que seu marido, o ex-governador Anthony Garotinho, administrou a cidade por dois mandatos na dcada de 90  lotou as reparties de funcionrios com cargos de confiana (so 1000 deles, o dobro dos existentes na Alemanha), distribui mensalmente 2,5 milhes de reais em benefcios a famlias escolhidas por critrios pouco transparentes e torrou 80 milhes de reais para erguer um sambdromo. Outra das cidades na rota do pr-sal, Presidente Kennedy, no Esprito Santo, tornou-se palco to escancarado dos desmandos com o dinheiro pblico que, em abril, a Polcia Federal prendeu o prefeito, seis secretrios e quatro vereadores por contrataes irregulares e fraude em licitaes. Essa turma no demonstrava nenhuma cerimnia com as verbas oficiais: pagava conta de farmcia dos moradores, dava aos produtores rurais rao  vontade e bancava uma frota de tratores que prestava servio s fazendas. Nomeado interventor, o ex-promotor Lourival do Nascimento se assustou ao chegar ao municpio de 10.000 habitantes e encontrar as ruas de terra batida e tantas crianas fora da escola. Ele alerta: Sem educao, o dinheiro do petrleo certamente escorrer pelo ralo.
     Em meio a esse tipo de cenrio, as autoridades locais reagem com previsvel espanto  questo bsica que a Firjan trouxe  tona em recente encontro de prefeitos, secretrios e empresrios interessados em investir nas cidades do pr-sal. Indagou-se a esses gestores qual era o plano que tinham para o crescimento que se avistava (s em investimentos privados, a regio deve receber 14 bilhes de reais at 2014). Fez-se silncio. Ficou claro que esses municpios no tm um planejamento nem mesmo para o futuro prximo. Voc pergunta, por exemplo: Onde vo se instalar as empresas que viro?. Ningum sabe responder, diz o economista Cristiano Prado, gerente de competitividade da Firjan. Alguns polticos chegam a revelar at mesmo averso  ideia do progresso, justificando que suas cidades esto ameaadas de perder o ar do interior. Numa miopia irresponsvel, preferem deixar tudo como est.
     O resultado  o que se observa em Maca  um emblemtico carto-postal do crescimento desordenado na trilha do pr-sal. Prxima  base de explorao da Petrobras e ponto de partida para o traslado de helicpteros rumo ao alto-mar, a cidade de 210.000 habitantes  uma das nicas duas entre as dez visitadas que no s recebem royalties como tambm sediam atividades diretamente ligadas ao petrleo (a outra  Rio das Ostras). Desde 1980, Maca recebeu mais de 5000 empresas, quinze cursos de instituies federais de nvel superior, centros de pesquisa de primeira linha (como o da multinacional francesa Schlumberger) e ainda viu florescer bons restaurantes e hotis de luxo. A populao disparou nesse perodo: 174%. Houve avanos, portanto, mas a inao pblica e a ausncia de qualquer planejamento fizeram dobrar o nmero de pessoas que vivem em favelas, e o ndice de homicdios chegou a 51 por 100.000 habitantes, o dobro do registrado no Rio de Janeiro. H uma dcada, a cobertura da rede de esgoto est estacionada em 66% e a de fornecimento de gua caiu 10%. Como  praxe no discurso dos governantes brasileiros e muito comum no trajeto do pr-sal, o secretrio municipal de desenvolvimento, Clinton Santos, lana a culpa sobre terceiros: A Petrobras s faz planos a curto prazo, e  difcil acompanhar essa dinmica.
     Os raros municpios que tm aproveitado o dinheiro do petrleo para crescer sobre uma base slida trilham caminho semelhante ao de pases mais bem-sucedidos nesse campo todos usaram esse dinheiro para fortalecer uma vocao econmica natural.  o que Ilhabela, no litoral paulista, e Bzios, no Rio, comeam a fazer com o turismo, por exemplo. A experincia refora a ideia de que, para multiplicar essa riqueza, no h que inventar a roda, mas obedecer com disciplina  cartilha universalmente aceita da boa gesto. A Noruega s conseguiu transformar-se na meca da alta tecnologia na indstria do petrleo treinando obsessivamente seus quadros. Fez tudo com respeito quase religioso a metas e prazos. No Brasil, o primeiro passo  regulamentar o uso dos royalties, que, pela lei atual, podem ser investidos em quase tudo,  exceo do pagamento de dvidas e de pessoal (mas at essa restrio  driblada com subterfgios como as contrataes temporrias, como VEJA observou).  preciso estabelecer regras que canalizem os recursos para sade, educao e infraestrutura, enfatiza a promotora Ncia Regina Sampaio, do Ministrio Pblico do Esprito Santo, coordenadora de um programa que forma gestores e informa a populao sobre as verbas que inundam o caixa de seus municpios  uma boa iniciativa.  a transparncia o que impedir a sobrevivncia dos regimes retrgrados que se perpetuam alimentando-se do ouro negro. E  o bom planejamento o que pode fazer com que ele se converta, enfim, em riqueza de verdade.

NA ROTA DA RIQUEZA
As dez cidades percorridas por VEJA so as campes em royalties do petrleo e j comeam a reforar o caixa com pr-sal. Os nmeros da regio:
Royalties em 2011: 2,8 bilhes de reais
Proporo dos royalties em relao ao PIB: De 20% a 79%
Previso de crescimento: 12% ao ano  trs vezes a mdia brasileira.
Fontes: ANP, Firjan e Delottte

O AVESSO DO PROGRESSO
Canal que corta a favela de Nova Holanda, uma das que mais cresceram em Maca: base de operaes da Petrobras, a cidade atraiu empresas, universidades e hotis de luxo, mas, sem nenhum planejamento para a nova era que veio com o pr-sal, assiste ao galopante aumento dos ndices de criminalidade e da favelizao.

TRATORES PARA O POVO
O ex-promotor Lourival do Nascimento, nomeado interventor em Presidente Kennedy  municpio de 10.000 habitantes no litoral do Esprito Santo , assumiu o comando depois que o prefeito, seis secretrios e quatro vereadores foram presos pela Polcia Federal por contratao irregular de funcionrios e fraude em licitaes. Fiquei abismado ao saber que a prefeitura pagava conta de farmcia dos moradores e oferecia, de graa, at frota de tratores aos fazendeiros da regio. No havia controle nenhum do dinheiro pblico, diz Lourival. Ruas de terra batida e um nmero assustador de crianas fora da escola so um retrato dos desmandos.

SOBRA DNHERO, FALTA SADE
Campeo brasileiro em arrecadao de royalties, Campos dos Goytacazes, comandado pela dinastia Garotinho,  um exemplo de municpio que retrocedeu nos principais indicadores. Desde 2000, a situao da sade ali despencou 1000 posies no ranking nacional. O neurocirurgio Eraldo Ribeiro Filho trabalha no maior hospital da cidade, onde se acumulam mazelas: h carncia de leitos, chove na sala dos mdicos e falta at material para a assepsia dos pacientes. Cirurgias de emergncia, s para quem espera mais de um ms na fila. Ningum viu a cor do dinheiro dos royalties por aqui, lamenta o neurocirurgio.

PARA TURISTA VER 
Em 2004, a prefeitura investiu 12 milhes de reais na reforma do calado  beira-mar (acima). No fez economia. At piso de porcelanato foi usado como revestimento. Dizia-se que a obra iniciaria um novo ciclo de investimentos com o objetivo de tornar o municpio uma potncia turstica. Mas nada do anunciado aconteceu, e o calado foi se deteriorando. Sem uma boa infraestrutura, Rio das
Ostras acabou relegada  posio de cidade-dormitrio da vizinha Maca.

UM PLANO PARA O FUTURO
Exceo entre as cidades na rota do pr-sal, Ilhabela, no litoral paulista, traou uma estratgia de desenvolvimento para os prximos anos.  A ideia  fomentar o turismo, vocao natural do municpio.  Uma das iniciativas  construir peres para incentivar o transporte entre as praias e desafogar o trnsito.  Em paralelo, h investimentos macios em educao e treinamento de mo de obra, medidas fundamentais para que o balnerio atraia novos negcios.

COM REPORTAGEM DE GABRIELA ROMERO


8. MALSON DA NBREGA  O LADO BOM DA DESINDUSTRIALIZAO
     A Revoluo industrial transformou a Inglaterra na maior potncia do sculo XIX Por isso, a industrializao passou a ser vista como o meio para alcanar padres superiores de desenvolvimento. At hoje, pas industrializado  sinnimo de pas rico. Assim, no sculo XX, a industrializao foi prioridade mundo afora. Ainda hoje, a ideia de que a indstria  o centro dinmico da economia povoa muitas mentes, para as quais o setor  a base do crescimento. A ele caberia disseminar o progresso tcnico, irradiando efeitos para a frente e para trs na cadeia produtiva.
     Fala-se em desindustrializao nociva ao Brasil, mas vrios estudos descartam a ideia. Regis Bonelli e Samuel Pessa, em artigo publicado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundao Getulio Vargas (2010), constatam o declnio da participao da indstria no PIB  de 36% em 1985 para 16% em 2009 , mas mostram que se trata de fenmeno mundial. A nossa participao  que era excessiva, por causa do fechamento da economia. Recentemente, a indstria nacional tem sofrido perdas alarmantes de competitividade, mas a explicao bsica  conhecida: salrios acima da produtividade e piora do custo Brasil (sistema tributrio catico, legislao trabalhista anacrnica, infraestrutura deteriorada e burocracia excessiva).
     A perda de participao da indstria em todo o mundo aumenta, naturalmente, a dos servios, que  de quase 80% do PIB nos pases desenvolvidos. No Brasil, os servios saltaram de 53% do PIB em 1990 para 67% do PIB em 2011. Muitos se preocupam, pois acham que os servios no geram ganhos relevantes de produtividade, que  a fonte essencial da elevao do potencial de crescimento. Esse raciocnio vale para servios prestados aos consumidores, como os de cabeleireiro, motorista, empregado domstico e semelhantes, mas no  sempre assim.
     De fato, embora a indstria continue importante, os servios assumiro a liderana que a ela pertenceu, na gerao de empregos e produtividade, da Revoluo Industrial at meados do sculo XX. J  assim na economia americana, conforme provou Eurico Moretti, da Universidade da Califrnia em Berkeley, no livro The New Geography of Jobs (2012). Para ele, a geografia do emprego tem mudado profunda e irreversivelmente nos Estados Unidos. Os eixos de inovao em servios so as novas engrenagens da prosperidade. Eles envolvem os setores de alta tecnologia: design e software de produtos como o iPhone e o iPad, tecnologia de informao, cincias mdicas, robtica, equipamentos mdicos, novos materiais e nanotecnologia. A produtividade cresce nesses setores graas ao avano tecnolgico.
     Pesquisas de Moretti mostram que nos Estados Unidos um emprego criado nos setores de alta tecnologia gera outros cinco. Na indstria, essa relao  de apenas um para 1,6. Os centros de alta tecnologia demandam relativamente mais profissionais de nvel universitrio, de alta qualificao e maiores salrios. A renda mais elevada aumenta a procura por servios de mdicos, engenheiros, arquitetos, personal trainers e outros, como os ligados ao lazer e ao turismo. Esses profissionais ganham mais do que seus pares que trabalham em regies desprovidas desses centros.
     reas de alta tecnologia  casos de Vale do Silcio, Austin, Boston, San Diego, Nova York, Washington e Dallas  so aglomeraes (clusters) dotadas de ecossistemas com oferta adequada de crdito, capitais, recursos humanos qualificados e servios de elevada eficincia em propaganda, assessoria jurdica, consultoria de gesto, engenharia e expedio de produtos. A educao  a base da inovao nesses centros. Para Moretti, os mercados emergentes que investem bem em educao e inovam tendero a trilhar o mesmo caminho. A China j produz mais patentes do que a Alemanha e a Frana.  o efeito, entre outros, de sua excelente poltica educacional.
     O Brasil precisa de reformas para aumentar a competitividade da indstria e preparar-se para competir nos promissores segmentos dos servios, isso exige uma revoluo na educao, nas instituies e, assim, no ambiente de negcios. Preferimos, todavia, reeditar polticas industriais de uma poca que passou.

MALSON DA NBREGA  economista


9. DEMOGRAFIA  A NOVA FACE DA EUROPA
Em menos de cinquenta anos, um em cada quatro moradores da regio ser imigrante ou descendente de estrangeiros. O desafio ser assimil-los sem subtrair da sociedade os melhores valores ocidentais.
NATHALIA WATKINS

     As fotos nos passaportes brasileiros e americanos no deixam dvidas de que essas so nacionalidades forjadas com a intensa imigrao. A variedade de formatos de rosto, de tons de pele e de tipos de cabelo faz com que, no retrato 5x7, qualquer cidado do mundo passe tranquilamente por brasileiro ou americano. Em cinco dcadas, o mesmo acontecer com os passaportes europeus. Segundo a agncia oficial de estatsticas da Unio Europeia, Eurostat, at 2061 pouco mais de um quarto de seus habitantes ser imigrante ou descendente de estrangeiros. Na ustria, a proporo poder chegar a 40%. Do ponto de vista econmico, a mudana  necessria. A chegada dos imigrantes impede que a populao desses pases diminua. As mulheres europeias esto tendo poucos filhos, uma tendncia que j vem de dcadas. Por causa disso, a regio precisar receber 700 milhes de pessoas at 2050 apenas para manter o atual nvel populacional. O desafio ser assimilar esse contingente de origens culturais e religiosas variadas sem prejuzo para os traos de identidade marcantes da Europa, como o secularismo, o respeito s minorias e a liberdade de expresso. Trata-se de um dilema que nenhum pas europeu conseguiu, at o momento, solucionar plenamente.
     A dificuldade na assimilao de imigrantes costuma ser atribuda  falta de planejamento dos governos europeus, em outros temas to eficientes em aplicar polticas com uma viso de longo prazo. Enquanto nos Estados Unidos se criaram diretrizes para receber novos cidados desde a independncia, isso s foi feito recentemente na Europa. Nos Estados Unidos, os requisitos mnimos para algum obter o status de americano so aceitar as normas da sociedade e estar disposto a trabalhar, diz o consultor grego Demetrios Papademetriou, presidente do Instituto de Polticas de Migrao, em Washington. Os europeus sempre pediram mais que isso. Exigem o respeito  tradio,  cultura e ao idioma.
     A verdade  que a Europa no pretendia ser um destino natural de imigrantes. Pensava-se que os trs principais fenmenos migratrios do sculo XX na regio seriam temporrios, e que logo os estrangeiros voltariam para sua terra natal. Nos anos 50 e 60, cidados dos pases do sul da Europa mudaram-se para os do norte para trabalhar na reconstruo aps a II Guerra Mundial. Depois, naes comprometidas com os direitos humanos, como a Inglaterra, a Alemanha e os pases escandinavos, passaram a conceder asilo a refugiados de guerra e perseguidos polticos vindos principalmente do Oriente Mdio e da sia. Com a independncia das ex-colnias europeias na frica e na sia, nos anos 70 e 80, o fluxo de pessoas alcanou seu auge. Ainda assim, as polticas migratrias s entraram em vigor nos ltimos quinze anos.
     Sem fluncia na lngua local, com valores e costumes diferentes e penando para encontrar trabalho  que ficou mais raro com a atual crise econmica , muitos imigrantes se colocaram nas franjas das sociedades que os receberam e vivem em guetos. Alguns desafiam as regras locais como se vivessem em um mundo paralelo. Um exemplo disso so os crimes de honra cometidos por imigrantes muulmanos mais radicais. A tenso que nasce da falta de integrao s vezes explode sob a forma de confrontos com a polcia, como os que ocorreram em Amiens, no norte da Frana, na semana passada. Indignados com uma batida da polcia em um funeral, jovens vndalos, na maioria filhos ou netos de imigrantes, atearam fogo a carros e feriram dezesseis oficiais. De maneira simplificada, os europeus dividem-se em duas vises conflitantes sobre como resolver o problema. Uns pedem o fechamento das fronteiras e a expulso dos estrangeiros. Outros dizem que os imigrantes devem ser aceitos como so, ainda que entrem em conflito com os valores e com as leis europeias. Daqui a cinquenta anos, essas duas posies provavelmente tero se tornado obsoletas. E o que  ser europeu ter adquirido um novo significado, ainda em formao. 

TERRA ESTRANGEIRA
Estimativa da participao de imigrantes e de seus descendentes no total da populao de pases europeus em 2061, se as taxas atuais de natalidade e de imigrao se mantiverem.
Luxemburgo 65%
Chipre 55%
ustria e Espanha 40%
Alemanha e Irlanda 35%
Inglaterra, Portugal, Itlia, Dinamarca, Blgica, Grcia, Sucia e Eslovnia 30%
Holanda 25%
Repblica Checa 20%
Fonte: Eurostat

